A nova geografia da inovação em saúde: construindo com menos

23

O mundo está a reavaliar as fronteiras, mas está em curso uma mudança mais fundamental nos cuidados de saúde. A inovação já não está confinada às nações ricas; as soluções mais eficazes nascem cada vez mais de sistemas que operam sob severas restrições. Não se trata de caridade ou necessidade, mas da eficiência inerente à necessidade.

Durante décadas, a inovação nos cuidados de saúde seguiu um padrão previsível: a investigação de centros abastados chegou a locais com recursos limitados. Esse modelo está desmoronando. O aumento dos custos, o envelhecimento da população, a escassez de mão-de-obra e a fragilidade sistémica estão a forçar os sistemas de saúde em todo o mundo a enfrentar as mesmas realidades. As respostas mais resilientes não vêm do excesso, mas de lugares que nunca tiveram o luxo disso.

Restrição como princípio de design

Os mercados emergentes – que abrigam 85% da população global – são vistos há muito tempo como adotantes e não inovadores. Essa percepção está desaparecendo. Os sistemas construídos sob restrições priorizam o rendimento, a disciplina de preços e a repetibilidade. Ao contrário das nações mais ricas que aumentam a complexidade administrativa, muitas plataformas emergentes eliminam o que não é essencial. A escassez força a clareza: o que deve funcionar e o que pode ser descartado.

A América Latina fornece um exemplo claro. Enfrentando escala, desigualdade e financiamento limitado, os sistemas de saúde da região não procuraram replicar modelos complexos. Em vez disso, eles se concentram na entrega simplificada. A plataforma DoctorSV de El Salvador oferece consultas digitais gratuitas, registros de saúde unificados e prescrições eletrônicas em todo o país. A Salud Digna do México oferece diagnósticos em massa por uma fração dos custos do setor privado. A Dr.Consulta do Brasil oferece atendimento ambulatorial mais rápido e barato. A característica definidora não é a novidade, mas a execução sob pressão.

Reconhecimento Institucional e Investimento

Esta mudança não se trata apenas de sucesso operacional; está ganhando reconhecimento institucional. No Fórum GET do Laboratório do BID de 2026, as autoridades observaram a aceleração do investimento em soluções desenvolvidas regionalmente. Estes modelos já não são vistos como adaptações locais, mas como sistemas escaláveis ​​com relevância mais ampla.

O financiamento do desenvolvimento molda quais modelos sobrevivem e se espalham. Ao tratar as plataformas dos mercados emergentes como fontes de inovação a nível de sistema, em vez de excepções, a hierarquia da indústria começa a inverter-se.

Resiliência acima do refinamento

As economias avançadas muitas vezes dão prioridade à sofisticação, mas a complexidade gera fragilidade. Fluxos de trabalho especializados entram em colapso devido a lacunas de pessoal, sistemas de TI integrados falham com interrupções e cadeias de fornecimento otimizadas quebram sob choque. A resiliência não é um complemento; é uma necessidade.

A Estratégia de Saúde da Família do Brasil, construída em torno de agentes comunitários de saúde integrados na atenção primária, ilustra isso. Abrange a maior parte da população com um modelo que assenta na proximidade, na redundância e no capital humano – necessidades que nascem de infra-estruturas desiguais e de recursos limitados. Sistemas ricos agora pilotam profissionais de saúde comunitários como inovações, enquanto o Brasil institucionalizou a abordagem há décadas.

O Fluxo da Lógica Operacional

A inovação nos cuidados de saúde já não flui numa direção. Os modelos forjados sob restrições estão a entrar em mercados mais ricos, enquanto o capital e a experiência em governação fluem na direcção oposta. Não se trata de “inovação reversa”; trata-se de sistemas migrando em direção à relevância. O que viaja não são produtos baratos, mas lógica operacional : entrega integrada, atendimento padronizado e estruturas de custos disciplinadas.

A Sanitas da Keralty, em expansão nos EUA desde 2015, exporta um modelo latino-americano para um dos mercados mais complexos do mundo. A Auna segue um padrão semelhante no México, Colômbia e Peru. Os cuidados fragmentados revelaram-se insustentáveis; a integração tornou-se um imperativo económico. Protocolos clínicos, capacidade de pesquisa e padrões circulam pela rede.

O papel do capital no dimensionamento

As restrições podem produzir modelos viáveis, mas o capital determina se eles serão escalonáveis. As plataformas requerem tempo para amadurecer além-fronteiras, absorver variações regulamentares e institucionalizar a qualidade. Muitas vezes, os investidores preferem a novidade à durabilidade. Os sistemas de prestação de cuidados de saúde raramente falham porque a sua lógica não é sólida; eles falham porque os investidores priorizam a velocidade em vez da resiliência. Se o capital continuar a recompensar ganhos rápidos, os modelos mais promissores continuarão a ser sucessos isolados.

O futuro da inovação nos cuidados de saúde depende de uma questão simples: que sistemas podem funcionar de forma fiável quando as condições se deterioram? A velha geografia da inovação – fluindo da riqueza para a escassez – já não se mantém. Em vez disso, surge um mapa pragmático, moldado por restrições, execução e resiliência. O futuro pode não pertencer àqueles que construíram mais, mas sim àqueles que aprenderam a construir com menos.